Apresentação do CD
Matuttini de’Morti de Bomtempo

Data a designar

Centro Cultural Olga Cadaval

 

Créditos Bomtempo

Image

Apresentação do CD Matuttini de’Morte de Bomtempo Gravação ao vivo pelo Festival de Sintra 2021 nas Comemoração do bicentenário da Constituição Portuguesa de 1822 e  200º aniversário da estreia do Matuttini d’Morte (1822)



João Domingos Bomtempo (1775-1842)
 
A propósito dos Matuttuni de’ Morti: uma efeméride que se cruza com a primeira Constituição Portuguesa de 23 de Setembro de 1822 
1822-2022

A vida de João Domingos Bomtempo decorreu num tempo de profundas transições, quer em Portugal, quer na Europa. Bomtempo foi parte ativa nessas transformações, quer como músico – foi quem fez a ponte entre o classicismo e o romantismo musical em Portugal - quer como cidadão. Foi um reformador do ensino, um pedagogo, fundador do Conservatório Nacional de Lisboa com Almeida Garrett e, ainda, um verdadeiro ativista social, distinguindo-se como partidário entusiasta do Liberalismo e da Carta Constitucional, tudo isto colocando sempre a sua arte ao serviço destas causas. Mas apesar de o seu legado artístico lhe garantir o lugar cimeiro da música instrumental da 1ª metade do século XIX português, quer a sua música, quer a sua vida permanecem ainda relativamente desconhecidas da maioria dos portugueses.
A carreira de Bomtempo decorreu contra todas as probabilidades, tendo em conta o ambiente lisboeta retrógrado do final de setecentos, a ausência duma burguesia próspera que incentivasse o consumo artístico privado, as invasões napoleónicas, a saída da corte para o Brasil, as lutas liberais e a guerra civil – i. e., um quadro geral em tudo contrário às artes.
Durante o reinado de D. Maria I e na regência de D. João VI, apesar de um certo cosmopolitismo na corte, o peso da Igreja Católica da Contra-Reforma resultou num “fechamento cultural”, que condicionou a plena introdução do espírito iluminista do “´século das luzes” em Portugal.
Dez anos antes de Bomtempo nascer, ainda a Inquisição, perante o espanto da Europa iluminista, condenava à fogueira o Padre Gabriel Malagrida e os autos de fé do Santo Ofício iriam prolongar-se quase até ao final de setecentos. O fundamentalismo religioso, o preconceito e o obscurantismo impunham as regras e conduziam ao conformismo nas artes.
Se a música puramente instrumental tardava a impor-se, mais ainda a introdução de um repertório de feição mais moderna, ou de outra origem que não a italiana.
É neste contexto que nasce João Domingos Bomtempo, filho do italiano Francesco Saverio Bomtempo, oboísta vindo para Portugal para integrar a Real Câmara em meados do sec. XVIII.  Faz-se músico jovem, integra o coro dos meninos cantores da Bemposta e torna-se músico da Real Câmara. Em 1801, aos 26 anos, decide aperfeiçoar-se e escolhe Paris, em vez de Roma ou Nápoles como era habitual entre os seus pares, optando pela música instrumental - o piano, em vez da opção mais habitual, a ópera. É a 1ª grande rutura com a tradição,  o jovem João Domingos vai à procura das novas correntes estilísticas do centro europeu, na senda da Escola de Viena. Busca música no espírito do seu tempo, um tempo voltado para o futuro e para a música instrumental.
Liberdade, Igualdade, fraternidade – é este o ar que se respira em Paris. E é onde Bomtempo inicia uma carreira de pianista de sucesso, onde brilha nos salões como solista. A simpatia de Bomtempo pela causa liberal e o seu muito provável envolvimento com a maçonaria terão certamente tido influência nesta escolha. É também em Paris que começam os contactos e as amizades artísticas que irão influenciar a escrita musical de Bomtempo. Durante as invasões napoleónicas, Bomtempo muda-se para Londres onde ganha amizades importantes no meio musical londrino, faz sucesso como pianista e publica a maior parte da sua obra para piano, orquestra, música de câmara, sinfonias e cantatas.
Depois de 13 anos de ausência em Paris e Londres e terminadas as Guerras Peninsulares, Bomtempo regressa a Lisboa, mas de forma intermitente. Nestas vindas a Lisboa vai encontrando sempre um ambiente pouco propício à atividade musical. O país encontrava-se no rescaldo da guerra com os franceses e com a corte ainda no Brasil, mas, sobretudo, tratava-se de um país depauperado e institucionalmente frágil. Até que em 1820 Bomtempo decide regressar definitivamente a Portugal entusiasmado com a iminência da proclamação da Constituição. Logo no ano seguinte, em 1821, estreia na Igreja de São Domingos a “Missa em obséquio da Regeneração Portuguesa” nas celebrações do Juramento das Bases da Constituição e o seu excelente “Requiem à Memória de Camões” que é interpretado em honra de Gomes Freire de Andrade e dos supliciados de 1817. Após o seu regresso a Portugal, o grosso da sua produção musical é sobretudo coral- sinfónica – para além de obras que possam não ter chegado ao nosso conhecimento, especialmente aquelas datadas do período de 5 anos em que esteve exilado no consulado da Rússia escondido da polícia política de D. Miguel durante a guerra civil, corpus produtivo de que não se possui qualquer registo.
A qualidade do seu Te Deum, das Quatro Absolvições, do Libera Me, dos Matutuni de’ Morti, as obras sacras que chegaram aos nossos dias (ao contrário de outras Missas que se perderam, como a “Missa em obséquio da Regeneração Portuguesa”) é verdadeiramente surpreendente. Colocam Bomtempo num patamar qualitativo inquestionável e ao nível dos compositores europeus de primeiro plano do seu tempo. Se nos lembrarmo-nos das suas primeiras sonatas para piano, escritas 15 a 18 anos antes, ou da música sacra que se fazia em Portugal 10 anos antes, temos que nos inclinar perante o notável percurso inventivo deste compositor e do salto qualitativo que imprimiu à sua obra, face ao legado coral sinfónico desta década.
Há, na sua obra sacra e nos seus Matuttini, uma atração pela luminosidade da vida, que contraria a ideia da celebração da morte. São, pelo contrário, a celebração da vida para além da morte. A grandiosidade da emoção é romântica, próxima de Berlioz. Se o recorte e a elegância são mozartianos, a vocalidade dos solos, poderosa, é claramente oitocentista. O tratamento orquestral é amplo, o recurso aos trombones acentua a profundidade da mensagem. Bomtempo afirma-se aqui como um compositor romântico, ligado a todas as referências europeias do seu tempo. São obras da plena maturidade de Bomtempo, que representam a sumula da experiência acumulada nos anos da juventude passados em Paris e Londres, mas também a síntese da herança musical da sua infância em Portugal. Não podem ser ignorados os anos de juventude na Irmandade de Santa Cecília, a sua experiência como instrumentista e maestro na Real Câmara e as influências lusitanas de que a sua música inevitavelmente suscita. São estas particularidades que singularizam o seu idioma musical, a par duma ideologia cívica que nunca cessa de se fazer sentir, quer na materialização do seu pensamento musical, quer nas escolhas do repertório.
Com o regresso de D. Pedro IV em 1833 e recuperada a paz social, o novo regime reconhece-lhe as qualidades cívicas, o mérito do seu percurso artístico e atribui-lhe a qualificação de mestre de música da Rainha D. Maria II, que agracia João Domingos Bomtempo com a Comenda da Ordem de Cristo e se torna madrinha do seu filho Fernando.
Bomtempo vê agora, finalmente, atingido outro grande objetivo da sua vida: a possibilidade de intervir no ensino da música em Portugal, com a criação do Conservatório de Música, função que desempenha até falecer aos 66 anos, a 18 de agosto de 1842.
Sempre movido por valores patrióticos e dedicado à causa liberal e constitucional, Bomtempo nunca deixou de se pautar pelos valores da modernidade, quer como compositor, quer como pedagogo, quer ainda como introdutor em Portugal dos concertos públicos por subscrição.
Bomtempo foi um caso isolado no seu tempo e no seu país. Um homem na charneira de uma época que faz uma revolução serena na música, por dentro do sistema, colocando-se sempre do lado certo do progresso, das causas da modernidade, pelo desenvolvimento da Educação e pelo acesso às artes.

Gabriela Canavilhas